sexta-feira, outubro 16, 2015

O Abduzido

O sono foi agitado naquela noite. Acordou de sobressalto, banhado de suor. Estava atrasado. Aprontou-se correndo e dirigiu-se ao metrô.

No caminho, percebeu um número incomum de pessoas gesticulando nas ruas. Mais alguns metros e mais pessoas usando sinais. Eram surdos-mudos, felizes ou apressados, mas todos se comunicando por meio das mãos. Entrou na estação e praticamente todos falavam somente por meio de Libras.

Naturalmente, achou que era algum modismo propagado pelas mídias sociais. Pegou o celular para ver se achava alguma notícia sobre aquele estranho comportamento social.

Nada!

Desceu do metrô, entrou no escritório. Soltou um sonoro bom-dia para ver a reação das pessoas, mas todos responderam com um educado aceno. Nada mais.

Chegou junto do Mário, seu melhor amigo no trabalho. Quis saber o porquê daquele voto de silêncio coletivo. Era alguma nova lei? Mário parecia não compreender patavina do que ele falava e, pior, ele também não compreendia os sinais silenciosos do colega.

O dia inteiro foi essa loucura, ele tentando se fazer entender e ninguém o compreendia. O contrário também.

No final do expediente procurou o pronto-socorro. Devia ser alguma alucinação ou estafa. Tentou, da melhor forma, explicar sua bizarra situação para o médico, que também só gesticulava. Pelo que entendeu, seu problema pode ter sido derivado de um problema congênito durante a gestação ou trauma. Fim da consulta.

Voltou frustrado para casa, sentindo-se só e deslocado naquele mundo exclusivamente não verbal.

Ligou a tv. Atores de novela, âncoras de telejornal e garotos-propaganda estavam afônicos. Era inútil.

Desligou a TV e aos poucos foi tomado por uma sonolência irresistível.

Acordou na manhã seguinte do jeito que havia chegado em casa, ainda vestido com a roupa do trabalho, recostado no sofá e com o controle remoto na mão. Ligou a TV num gesto automático e, para sua surpresa, tudo havia voltado ao normal: o homem do tempo dava a previsão em bom e claro português, com gestos comedidos.

Viva!

Animado, quis levantar-se, mas as pernas falharam. Simplesmente não respondiam.

Entrou em pânico. O que terá acontecido com ele agora?

Só então notou um objeto estranho em sua sala. Do lado do sofá encontrava-se estacionada uma enigmática cadeira de rodas...

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