quinta-feira, dezembro 24, 2015

sexta-feira, dezembro 04, 2015

Rebranding

O saudoso cartunista Fortuna publicou um livro chamado Fala, logotipo, no qual ele fazia brincadeiras gráficas com marcas famosas. Inspirado nele, fiz um exercício similar.

sexta-feira, outubro 16, 2015

O Abduzido

O sono foi agitado naquela noite. Acordou de sobressalto, banhado de suor. Estava atrasado. Aprontou-se correndo e dirigiu-se ao metrô.

No caminho, percebeu um número incomum de pessoas gesticulando nas ruas. Mais alguns metros e mais pessoas usando sinais. Eram surdos-mudos, felizes ou apressados, mas todos se comunicando por meio das mãos. Entrou na estação e praticamente todos falavam somente por meio de Libras.

Naturalmente, achou que era algum modismo propagado pelas mídias sociais. Pegou o celular para ver se achava alguma notícia sobre aquele estranho comportamento social.

Nada!

Desceu do metrô, entrou no escritório. Soltou um sonoro bom-dia para ver a reação das pessoas, mas todos responderam com um educado aceno. Nada mais.

Chegou junto do Mário, seu melhor amigo no trabalho. Quis saber o porquê daquele voto de silêncio coletivo. Era alguma nova lei? Mário parecia não compreender patavina do que ele falava e, pior, ele também não compreendia os sinais silenciosos do colega.

O dia inteiro foi essa loucura, ele tentando se fazer entender e ninguém o compreendia. O contrário também.

No final do expediente procurou o pronto-socorro. Devia ser alguma alucinação ou estafa. Tentou, da melhor forma, explicar sua bizarra situação para o médico, que também só gesticulava. Pelo que entendeu, seu problema pode ter sido derivado de um problema congênito durante a gestação ou trauma. Fim da consulta.

Voltou frustrado para casa, sentindo-se só e deslocado naquele mundo exclusivamente não verbal.

Ligou a tv. Atores de novela, âncoras de telejornal e garotos-propaganda estavam afônicos. Era inútil.

Desligou a TV e aos poucos foi tomado por uma sonolência irresistível.

Acordou na manhã seguinte do jeito que havia chegado em casa, ainda vestido com a roupa do trabalho, recostado no sofá e com o controle remoto na mão. Ligou a TV num gesto automático e, para sua surpresa, tudo havia voltado ao normal: o homem do tempo dava a previsão em bom e claro português, com gestos comedidos.

Viva!

Animado, quis levantar-se, mas as pernas falharam. Simplesmente não respondiam.

Entrou em pânico. O que terá acontecido com ele agora?

Só então notou um objeto estranho em sua sala. Do lado do sofá encontrava-se estacionada uma enigmática cadeira de rodas...

terça-feira, outubro 06, 2015

Saudade: sentimento com os dias contados

As mídias sociais vão arrancar uma das mais belas pétalas da Flor do Lácio - a saudade, palavra tida como sem similar em outro idioma. Numa sociedade liquefeita, como sugere Bauman, este termo está perdendo todo o sentido original uma vez que a ubiquidade nos meios digitais vence qualquer barreira geográfica e até temporal.

Boa parte da humanidade economicamente ativa mantém on line algum tipo de registro pessoal (imagens estáticas, áudios,  videos, textos) que pode ser resgatado a qualquer momento por entes queridos - e outros nem tanto - a qualquer hora do dia e da noite, ao menor sinal do sentimento primordial que deu origem ao termo em latim "solicitatem" e que depois foi adotado pela lingua portuguesa como "saudade".

Mesmo se apertar a necessidade de materializar a memória do objeto ou pessoa da qual sente falta, estão aí as impressoras 3D, que, como um gênio da garrafa, ou deus ex-machina, podem realizar tais desejos num passe de mágica. Com um "clic" aciona-se a usinagem e pronto: o busto da pessoa almejada ou uma réplica em resina de uma arma de época tangibiliza-se para matar a saudade - ops! - quero dizer, vontade.

E é isso mesmo, a saudade, aquele sentimento de algo inalcançável momentaneamente vai dar lugar a palavra vontade, que pode ser satisfeita imediatamente, ainda que por meios artificiais.

Numa sociedade em estado de liquefação não é de se estranhar que a saudade também seja pasteurizada, como as proprias relações sociais.

Pois é pessoal, até a saudade está em desuso.

O próximo passo será tornar o ser humano obsoleto e descartável.

Espera aí...



terça-feira, setembro 29, 2015

O terno

Desconfio, mas não posso afirmar com certeza, que descobri o motivo que leva os homens de negócio a usar terno. Não é só pela elegância, pois outros tipos de roupa são tão elegantes quanto e muito mais confortáveis, ainda mais em um país tropical como o Brasil.

Sem levar em consideração qualquer pesquisa acadêmica e partindo apenas de uma análise semiótica leviana, defendo a tese de que os homens de negócio usam terno por medo. Como se o conjunto todo fosse uma armadura.

Quais evidências sustentam a minha tese? Bem, em primeiro lugar, o terno é guardado no armário. Antigamente, este móvel era usado para guardar armas e, com o tempo, cedeu lugar às roupas. Se prestarmos bem atenção, o terno envolve todo o corpo do executivo, deixando apenas os pés e a mãos de fora, como a couraça de um tatu..

Complementa o terno um acessório chamado gravata. O formato da gravata lembra uma espada, lança ou flecha. É óbvia também a semelhança com um falo. Aliás, a palavra gládio (espada curta) lembra glande, a ponta do pênis.

Pelo exposto, os homens de negócio usam o terno com a finalidade de se proteger e de reforçar a masculinidade perante os outros.

Acredito que o mundo será muito mais leve e terno quando o terno for aposentado...

quarta-feira, maio 13, 2015

A nova ordem mundial


Atenção!
Vem aí
a nova ordem mundial
e nada mais
será igual.

Não é boato,
nem mito.
Isso está escrito
em Machu Picchu.

E é coisa bonita
de se ver
toda jeitosa
em full HD.

Se acha que
a nova ordem mundial
é coisa de nerd,
você está certo,
pois é aí que você
se engana.

A nova ordem tem
um sabor de plástico
idêntico ao natural
que todo mundo gama.

Ela já corre
em suas veias,
divide sua cama
e tatua seus filhos.

A nova ordem se insinua
nas planícies, planaltos e rios,
templos e  favelas.
Ninguém, ninguém
está a salvo dela!

Se tem dúvida,
siga a trilha da grana,
através do labirinto
de Creta.

Lá, no fim da linha
a nova ordem mundial
estará te esperando
de pernas abertas.

E para celebrar
o encontro marcado,
ela lhe dará
o eterno abraço
do afogado.

sexta-feira, abril 10, 2015

Gomorra S.A.

Um homem entra esbaforido na sala de reunião da diretoria. Desesperado, conta que o estoque pegou fogo. Os bombeiros ainda não chegaram. Os brigadistas tentam, em vão, conter as chamas, que ameaçam avançar sobre  as casas vizinhas e uma área de preservação ambiental próxima.
- Um incêndio? Isto é péssimo para a imagem dos negócios!  -  alerta o  Relações Públicas.
- Uma licitação para repor o estoque vai  levar um mês,  adverte Compras.  
- Ainda não fomos notificados sobre o fato oficialmente.  Somente nos pronunciaremos em juízo! -  vocifera o Jurídico.
- Calma! Quando a crise passar, vamos calcular o prejuízo e acionar o seguro, diz Finanças, sem tirar os olhos da sua planilha eletrônica.
- O culpado pelo incêndio irá pagar por isso! -  promete Segurança.
-  Contrataremos  terceiros para repor as baixas em curto prazo e por um custo menor,  tranquiliza o RH.
- Que pena! Perderemos nossa certificação ambiental! Lamenta Sustentabilidade, soando o nariz em um lenço descartável produzido com  fibra de celulose 100% reflorestada.
Agora uma explosão rebombou na sala. O inferno atingia o clímax.
Vendo que ninguém ali  tomava uma resolução prática, o homem, ainda desnorteado,  cai de joelhos, rogando aos céus:
- Deus, socorro!
Eis que surge uma voz angelical do nada:
- Mas já te socorremos, filho!
- C-como, Senhor, se lá dentro ninguém tomou uma providência que preste? – balbucia o homem, ainda tentando localizar a origem da voz.
- Nós te inspiramos a buscar ajuda. Fizeste tua parte, agora vai, safa-te, antes que seja tarde!
O homem arruma forças não sabe de onde e foge para a rua, sem olhar para trás. Pouco antes de abandonar o prédio, ainda conseguiu ouvir  Presidência demitir a cúpula aos berros. Na sequência, uma derradeira explosão coloca  a empresa abaixo.
Por uns instantes, o homem contempla aquele cenário pós-apocalíptico. Tudo era fuligem e fumaça. Mas uma ideia subitamente iluminou sua face. Ainda abalado, mas decidido,  pega um pedaço de madeira no meio dos escombros  e um carvão. Com o tição escreve na placa:
Vende-se este terreno.

O homem era Marketing.