quinta-feira, agosto 23, 2012

Pai de aluguel


Seu filho não se lembra mais de como você é? Sua esposa tira férias sozinha? Essa oportunidade é para você, alto executivo, que sempre chega tarde em casa e não tem tempo para a família.

O seu drama tem solução! Chama-se pai de aluguel. Isso mesmo, por uma módica quantia, você contrata uma pessoa diferenciada para desempenhar o seu papel melhor até do que você. Ele faz lição de casa com sua criança, ouve os desabafos da patroa e ainda faz um cafuné no cachorro. Por um pequeno valor adicional, ele ainda dorme no trabalho, quer dizer, no lar.

Tem pai de aluguel para todos os gostos: pai herói, pai coruja, pai fresco...

 Não perca esta oportunidade. Alugue hoje mesmo um pai de aluguel.

Afinal, pode ser que amanhã não tenha mais uma família na sua casa te aguardando.

sexta-feira, agosto 10, 2012

Um dia na vida da dona vaca


 Dona vaca acordou bem cedo. Após a higiene pessoal, ela se produziu com cosméticos dermatologicamente testados em pessoas  e  vestiu seus calçados feitos de couro ecológico, que dispensa o uso de produtos químicos no curtume da pele humana.

Em seguida  fez o dejejum com o iogurte light de uma respeitada marca de laticínios. Dona vaca consome o produto  com tranquilidade, pois sabe que o leite utilizado por aquela companhia   é  extraído com toda a assepsia  de fêmeas humanas e pasteurizado em seguida, sem qualquer contato bovino.

O rádio informa que o clima está imprevisível, provavelmente por conta do efeito estufa. Diz o repórter que o aquecimento global se deve, em grande parte, aos gases emitidos pelos humanos, que prejudicam a camada de ozônio que protege o planeta.  “Que desagradável”, rumina dona vaca, sorvendo a última colherada do laticínio.

Dona vaca deixa o conforto de seu lar, dá partida em seu veículo elegantemente  revestido de couro humano e ruma para o trabalho, situado a poucos quilômetros da sua casa. Como todo o gado sai para o trabalho ao mesmo tempo, ela enfrenta um pequeno congestionamento, que a faz chegar atrasada.

No emprego, dona vaca é muito eficiente  e recupera o tempo perdido. Meio expediente depois, ela está em um restaurante nas imediações da empresa com seus colegas, fatiando um delicioso bife de bebê humano, amaciado e temperado com ervas finas.  Eles almoçam tranquilamente e ainda sobra um tempinho para dona vaca dar uma espiada na vitrine de uma loja próxima. Ela não resiste e compra uma linda bolsa de couro humano, com enfeites manufaturados com osso.

O resto do dia corre sem grandes novidades. Alguns colegas trocaram algumas chifradas e um bezerro aprendiz quase foi pisoteado, mas no final do dia todos estavam com sensação do dever cumprido. Era hora de voltar para o lar doce lar e se preparar para mais um dia de batente.

Dona vaca pega outro congestionamento na volta. A monotonia do tráfego deixa dona vaca melancólica. E, num raro momento de  reflexão, dona vaca percebe que falta algo em sua vida. Ela vive só. O relógio biológico deu o alarme e seu instinto bovino despertou.

Mas Dona vaca tem uma meta. Construir uma carreira de sucesso e só depois constituir uma família. Mas o que fazer para sublimar seu instinto maternal?

Na vizinhança da cidade, surge a solução na figura de um pet shop. Guiada pela instinto, ela vai até a seção de animais para adoção e se depara com a criança humana mais linda que já viu. Além de alegre, ela estava tosada, imunizada, castrada  e vermifugada. Foi amor à primeira vista. Dona vaca adotou o animalzinho de estimação e a instalou na área de serviço do seu apartamento. Ficaram até tarde da noite brincando e dona vaca adormeceu, com a criança em seu colo.

sexta-feira, agosto 03, 2012

Kafka Ltda


Um dos livros mais angustiantes que já li foi O Processo, de Franz Kafka (1883-1924). É como viver um um pesadelo acordado. Nessa obra, o personagem Joseph K. é acusado de um crime que ignora, julgado e condenado arbitrariamente. Aliás, Kafka tinha uma obsessão: retratar personagens vítimas das circunstâncias ou de sistemas despóticos de poder. Em a Metamorfose, outro exemplo, o protagonista Gregor Samsa simplesmente desperta transformado em um grande inseto!


Kafka é tido como um dos autores mais influentes da literatura ocidental. No entanto (os críticos que me perdoem a audácia), a influência deste celibatário escritor não foi mapeada em toda a sua extensão. Essa interferência transcende os limites fantasiosos dos livros. O modelo kafkaniano de status quo foi adotado e perpetuado pela sociedade, tendo se infiltrado, inclusive, nas células familiares e mitocôndrias organizacionais.


Toda organização, pública ou privada, cujo poder jorra torrencialmente de forma unidirecional, geralmente no sentido descendente, é kafkaniana por excelência. Empresas e instituições, que tomam decisões arbitrárias, ignoram o diálogo e o direito à defesa em seus processos diversos, na relação com os mais variados stakeholders, emulam com maestria a obra desse escritor germânico, consciente ou inconscientemente, todos os dias.


Basta olhar ao redor. Os exemplos pululam como pipocas no microondas.


Não estranhe se um dia acordar com “um dorso duro e inúmeras patas”.

Celular corporativo