segunda-feira, junho 01, 2009

Memórias da caserna: cordeiro em pele de lobo

Eu semanalmente tenho pesadelos com o meu serviço obrigatório no Exército. Invariavelmente, no sonho, estou de plantão ou tenho de usar uma Beretta 9 mm em legítima defesa. Logo eu, que abomino armas. Bem, tudo isso para explicar porque compartilho com vocês aqui algumas memórias desse período trevoso da minha vida: é para exorcizar meus demônios interiores mesmo.

Como hoje faz frio e estou com sinusite, lendo que a Coréia do Norte está ameaçando lançar mais um míssel atômico de longo alcance (ainda que seja de pequeno alcance, já uma temeridade uma arma atômica na mão de qualquer nação), lembrei-me de um episódio chinfrim, mas que dá o que pensar.

No inverno de 89, nosso pelotão iria fazer seu primeiro bivaque. Para quem não sabe, bivaque é um acampamento, claro, a céu aberto. Passaríamos uma noite na natureza em um aprazível terreno encharcado nas redondezas de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, onde a temperatura normalmente é mais amena e há mais cerração do que na capital

Desnecessário aqui narrar as humilhações impingidas aos recrutas pelos praças e oficiais. Vou me ater a uma injustiça ainda mais cruel, que é a perpetrada pelos próprios iguais.

Depois de uma série de treinamentos, ordem unida e maus tratos, autorizaram a tropa a descansar. Depusemos parte da tralha pessoal de campanha e nos preparamos para dormir ao relento, em meio à neblina, no chão úmido que o diabo amassou. Quando fui procurar minha manta na mochila, uma surpresa: alguém havia surrupiado o cobertor.

Em vão qualquer tentativa minha de localizar a peça. Como eu estava incorporado a outra companhia provisoriamente, seria ingênuo demais esperar qualquer tipo de cooperação, pois a rivalidade entre os dois grupos era pior do que entre corintianos e palmeirenses. Também não podia contar com os cabos e sargentos para uma devasssa. Eu provavlemente ainda seria punido por ter perdido a manta ou todos ali teriam de fazer flexões até a manta aprecer - se é que fosse aparecer. Na certa, se isso acontecesse, eu levaria um "chá de cobertor" dos recrutas na primeira oportunidade. Vocês vão entender minha precaução depois de eu explicar o que é o "chá de cobertor. O "chá de cobertor" é uma variação do corredor polonês ou da lapidação bíblica. Os valentões jogam um cobertor sobre a vítima e a enchem de sopapos e pontapés, ou, conforme os humores, dão golpes com os coturnos, segurando-os pelos cadarços e usando o calçado como uma maça.

Então, aconteceu o inesperado. Um conscrito de nome Andrea, que mais tarde eu soube ser um vocalista de uma banda de heavy metal na sua vida paisana, condoído da minha miséria, fez um apelo aos camaradas para que me devolvessem o butim. A moral dele devia ser alta, pois do nada surgiu uma manta e pude, com um pouco menos de desconforto, repousar o esqueleto por algumas horas.

Não foi a noite mais fria da minha vida, mas chegou perto. Felizmente, ao redor tinha um bom samaritano, que conquistou o meu mais sincero respeito durante o meu estágio forçado na caserna. Aprendi mais com aquele gesto dele do que com toda a instrução moral e cívica que recebi no quartel.


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