sábado, maio 31, 2008

Respeito

No elevador, dois condôminos se encontram pela primeira vez.
- Bom-dia!
- Bom-dia!Morador novo, não? Seja bem-vindo. Me chamo Terêncio. Do 102.
- Prazer, Ter... Desculpe, poderia repetir sua graça?
- Terêncio. Nome diferente, né? Mas até gosto dele. Nunca tive problema com homônimos. Não conheço outro Terêncio. Sabe que um primo meu, chamado João, quase foi preso por engano? Culpa de um homônimo.
- Tem razão, homônimo é terrível. Mas, e na escola, não brincavam com seu nome?
- Brincavam, mas eu não ligava. Sabe como é: criança faz troça de qualquer coisa. Eu sempre tive presença de espírito. E respeito. Respeito muito o próximo.
- É, tem gente que não respeita os outros.
- Isso é da índole. Bem, décimo andar. Fico por aqui. E até mais seu...
- Caio Pinto.
- Como?
- Caio Pinto.
- Cai...Cai...o...Quiá, quiá, quiá......
Não consegue concluir a frase e sai do elevador rápido, num acesso de risos.
Hoje os dois evitam pegar o mesmo elevador.

quinta-feira, maio 29, 2008

Boletim de Ocorrência

Sexagenária entra na Delegacia de Polícia. Após meia hora de espera, o escrivão a atende.
-Pois não, senhora?
-Boa tarde. Vim dar parte.
-Uma queixa, hein? Contra quem?
-Queixa? Contra ninguém. Vim registrar um elogio.
- Elogio?
-É. Um elogio para a professora do meu neto. Ela não faltou um dia no último semestre. Queria deixar registrado meu reconhecimento pela assiduidade dela.
- Infelizmente não vou poder ajudá-la, senhora. Não registramos elogios. Só temos formulário para assassinato, estelionato, atentado violento ao pudor, estupro, furto, roubo, perturbação da ordem pública, contravenção, agressão doméstica, essas coisas... Elogio, não.
-Quer dizer que vocês só se ocupam da desgraça alheia? Não têm aí nenhum meio de destacar os cidadãos de bem?
-Não, senhora. Não temos tempo para as pessoas de bem.
-É uma pena.
-É o sistema, senhora.
-Uma pena mesmo...
-Por quê, senhora?
-Eu ia registrar um elogio para vocês também.
-Para nós, senhora? Como assim?
-Notei que pintaram o prédio por fora. E colocaram um jardinzinho na entrada. Ficou muito simpático. Está tudo muito limpinho. Nem parece uma Delegacia.
-Bem, neste caso, senhora, pode preencher esse formulário aqui para a Ouvidoria...

Tratado da boa convivência

Todo juiz, em início de carreira, é designado para atuar no interior. Era o caso de Pedro. Ele cumpria sua madureza judiciária em uma comarca esquecida por Deus, mas não pela justiça dos homens.
Lá ele deliberava sobre pendengas das mais diversas naturezas, o que exigia uma lógica toda especial de trabalho. O expediente da segunda-feira era reservado para a vara penal, terça-feira, para civil, e assim por diante. Num dia destinado a assuntos de família, o meirinho trouxe à sua presença um casal de bóias-frias. A mulher, um tanto constrangida, pedia divórcio. Pedro perguntou sobre o motivo da desistência. Ela contou que o marido não era amigo do banho. E que, à noite, depois de um dia cortando cana sob o sol, a catinga era insuportável.
Pedro, do alto de sua magistratura, ponderou sobre o caso. O marido era uma figura franzina, visivelmente abatida pelos rigores do ofício. O juiz perguntou ao bóia-fria se procedia a reclamação. Ele disse que sim. Voltava tão esgotado do canavial que não tinha forças sequer para encher o balde para o banho. Preferia ocupar os poucos minutos de folga à noite para repousar ou mesmo dormir. Mas não mostrava raiva pela mulher e agüentava a sabatina resignado.
Consultou ainda a esposa se essa posição era definitiva ou se era mudaria de idéia caso o marido fizesse as pazes com o sabonete. Ela respondeu que recorria ao juiz porque não tinha paciência ou estômago para aquele futum terrível, mas não por falta de amor ao cônjuge. Sim, ela continuaria a usar aliança se o marido tomasse jeito.
O juiz lembrou então de um tio seu, fazendeiro respeitado em uma cidade de analfabetos. Na ausência de qualquer outra autoridade constituída formalmente, os moradores o procuravam para resolver questões cotidianas. O seu tio pegava então uma velha e ensebada enciclopédia, fingia consultar seu conteúdo e dava um veredito para as partes, dizendo estar de acordo com as letras da obra. Legislava pelo bom senso e assim era muito querido na comunidade.
Pegando de exemplo o tio, pensou um pouco e digitou um pequeno texto no computador. Imprimiu duas vias e apresentou para o casal. Explicou que o documento à frente deles era o Tratado da Boa Convivência. O texto estabelecia que o marido tinha de se higienizar todos os dias antes de dormir, se não seria preso. E que a mulher desistiria do divórcio se o marido cumprisse as boas práticas da higiene.
Garantido-se de que os termos atendiam à reclamante e eram acatados pelo reclamado, coletou a impressão digital de ambos e selou o acordo.
Viu, satisfeito, marido e mulher saírem da sala abraçados, com a promessa de dias - e noites - mais felizes. Pela primeira vez desde que saiu da Faculdade de Direito, o togado teve a sensação de ter promovido, enfim, justiça.

Prevenção

- Osvaldo, quando você nasceu mesmo?
- Em 1953. Por quê?
- Então já está atrasado.
- Como assim, "atrasado", Diana? Passou da hora de quê?
- De ir ao médico. Você tem que agendar consulta.
- Mas do que está falando, criatura?
- Do exame.
- Pelamordedeus, Diana. Tirou o dia para me infernizar? De que exame você está falando, mulher?
- Daquele - pausa - daquele do toque.
_ Toque? Que toque?
- Toque naquele lugar. É o que diz esse folheto: "A maioria dos cânceres de próstata não causa sintomas até que atinjam um tamanho considerável. Acima de 50 anos, pode-se realizar o exame de toque retal e dosagem de PSA para saber se existe um câncer de próstata sem sintomas."
- Mas isso é só para velho. Para quem está fazendo hora extra na Terra.
- Que besteira, Osvaldo. Não tem idade para se prevenir. Do contrário, quanto mais uma pessoa se cuida desde cedo, mais saudável ficará na velhice. Nós, mulheres, vamos ao ginecologista desde mocinhas. É a mesma coisa.
- Não é, não.
- É sim.
- Não é, não! Comigo, não! Bumbum em que mamãe passou talco, ningúem põe a mão.
- Para cima de mim, Osvaldo? Te conheço. Você está é com medo. Lembra quando o médico receitou aquela injeção dolorida para você tomar? Você enrolou dois dias para tomar.
- Mas eu estava bom. Só tomei porque piorei depois.
- Então prova que você não está com medo. Vamos lá no posto marcar uma consulta.
- Ai, ai! Já vi que você não vai dar sossego, né Diana? É sempre assim. Foi assim com o azulejo da cozinha. Enquanto não trocamos o azulejo, você não deu sossego.
- E não ficou mais bonita, mais simpática, a nossa cozinha?
- Ficou, mas custou os tubos.
- Pois é. Agora eu quero que você cuide de si para continuar bonitão e fofo ao meu lado. E sem pagar nada.
- Bonitão, é? Fofo, é?
- É - pausa - Com tudo em cima.
- Hummm. Tá bom. Eu vou.
- Você é fofo, Osvaldo. Tão esperto!
- Mas com uma condição...
- Sabia... Qual, Osvaldo?
- Só se você for marcar também. Para você.
- Marcar o quê, Osvaldo?
- A consulta.
- Que consulta?
- Com o urologista. Para você fazer o exame de próstata também.

quarta-feira, maio 28, 2008

Revolução Industrial

Sim, estamos vivendo uma nova revolução industrial, igualzinha a que sacudiu a Inglaterra no século XVIII. Mulheres e crianças voltam a trabalhar 14 horas por dia em condições sub-humanas por um prato de comida. Ninguém quer ficar para trás. Muitas domésticas, babás e aias de distintas senhoras da nossa sociedade também já adotaram a nova jornada.

É o pogresso, senhores!

sábado, maio 24, 2008

Um conto de Natal

E tem a história do ateu que faz fortuna revendendo de empresas escusas, que exploram mão-de-obra quase escrava, os enfeites que penduramos alegremente na árvore de natal.

Quem disse que dinheiro não traz felicidade?

sábado, maio 10, 2008

Poeminha

Quando leio um bom livro, tenho vontade de arrancar fumaça do teclado.

Quando leio um bom gibi, quero esmirilhar o lápis e o papel.

Quando vejo um bom filme, fico abismado.

Mas quando estou feliz, é porque estou ao seu lado.

Para Mimi e Melmel (duas obras-primas).

Tênis novo