segunda-feira, novembro 24, 2008

A segunda morte do 1012

Decidido a escrever minhas memórias do serviço militar obrigatório, fui atrás de alguns colegas de quartel. Comecei pelo  1012 (no quartel, éramos tratados por números e 1012 é um número fictício, claro). Nós servimos numa unidade policial e ele fazia parte do canil. Com certeza deveria ter alguma história interessante  para contar, além de detalhar para mim como era  o trato e adestramento dos animais.  
Peguei o álbum de formatura e liguei para o telefone que constava do perfil dele. Atendeu uma senhora. 
- Alô! Boa-tarde. Meu nome é Marcelo. O 1012 está?
- Quem quer falar com ele? -  respondeu minha interlocutora, assustada.
- Meu nome é Marcelo. Servimos no Exército na mesma época. Estou retomando o contato para ter notícias dele.
- Faz tempo que não fala com ele, não é mesmo? - continuou, desconfiada.
- Sim, senhora. Assim que dei baixa  me afastei do pessoal e evitava tudo que fosse verde-oliva porque as lembranças do quartel eram - e ainda são - muito dolorosas. Até hoje ainda tenho pesadelo! Mas nesses dias bateu uma saudade da turma e resolvi ligar. Seu filho est...?
A mulher desabou ao telefone antes de eu concluir a frase. Pelo visto, eu não era o único que vivia assombrado pelo passado. Lutando contra lágrimas e soluços,  me explicou que o 1012 - um Golias em tamanho e uma candura em pessoa - havia apresentado um quadro severo de diabetes após a baixa do serviço militar.  
O curioso é que não lembro dele ter comentado sobre essa doença. Creio que nem teria sido convocado se tivesse qualquer sintoma parecido com isso.  O caso é que,   além da gravidade de seu quadro de saúde,  ele também teria negligenciado o tratamento e morreu, de acordo com a mãe. 
Eu me senti o canalha-mor por fazer aquela mãe ruminar o luto novamente. E tem colegas jornalistas que, intencionalmente,  vivem de explorar  a dor alheia para alavancar alguns pontos na audiência ou vender mais alguns exemplares.    É de um vampirismo atroz. Dou graças a Deus por não ter de fazer isso para sobreviver.
Pedi mil desculpas à mãe dele  e desliguei o telefone. 
Nem sempre convém revolver o passado.
E foi assim que meu projeto de memórias da caserna voltou para a  gaveta. 

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