quinta-feira, maio 29, 2008

Tratado da boa convivência

Todo juiz, em início de carreira, é designado para atuar no interior. Era o caso de Pedro. Ele cumpria sua madureza judiciária em uma comarca esquecida por Deus, mas não pela justiça dos homens.
Lá ele deliberava sobre pendengas das mais diversas naturezas, o que exigia uma lógica toda especial de trabalho. O expediente da segunda-feira era reservado para a vara penal, terça-feira, para civil, e assim por diante. Num dia destinado a assuntos de família, o meirinho trouxe à sua presença um casal de bóias-frias. A mulher, um tanto constrangida, pedia divórcio. Pedro perguntou sobre o motivo da desistência. Ela contou que o marido não era amigo do banho. E que, à noite, depois de um dia cortando cana sob o sol, a catinga era insuportável.
Pedro, do alto de sua magistratura, ponderou sobre o caso. O marido era uma figura franzina, visivelmente abatida pelos rigores do ofício. O juiz perguntou ao bóia-fria se procedia a reclamação. Ele disse que sim. Voltava tão esgotado do canavial que não tinha forças sequer para encher o balde para o banho. Preferia ocupar os poucos minutos de folga à noite para repousar ou mesmo dormir. Mas não mostrava raiva pela mulher e agüentava a sabatina resignado.
Consultou ainda a esposa se essa posição era definitiva ou se era mudaria de idéia caso o marido fizesse as pazes com o sabonete. Ela respondeu que recorria ao juiz porque não tinha paciência ou estômago para aquele futum terrível, mas não por falta de amor ao cônjuge. Sim, ela continuaria a usar aliança se o marido tomasse jeito.
O juiz lembrou então de um tio seu, fazendeiro respeitado em uma cidade de analfabetos. Na ausência de qualquer outra autoridade constituída formalmente, os moradores o procuravam para resolver questões cotidianas. O seu tio pegava então uma velha e ensebada enciclopédia, fingia consultar seu conteúdo e dava um veredito para as partes, dizendo estar de acordo com as letras da obra. Legislava pelo bom senso e assim era muito querido na comunidade.
Pegando de exemplo o tio, pensou um pouco e digitou um pequeno texto no computador. Imprimiu duas vias e apresentou para o casal. Explicou que o documento à frente deles era o Tratado da Boa Convivência. O texto estabelecia que o marido tinha de se higienizar todos os dias antes de dormir, se não seria preso. E que a mulher desistiria do divórcio se o marido cumprisse as boas práticas da higiene.
Garantido-se de que os termos atendiam à reclamante e eram acatados pelo reclamado, coletou a impressão digital de ambos e selou o acordo.
Viu, satisfeito, marido e mulher saírem da sala abraçados, com a promessa de dias - e noites - mais felizes. Pela primeira vez desde que saiu da Faculdade de Direito, o togado teve a sensação de ter promovido, enfim, justiça.

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